FHC contribuiu para o sucesso, admite Mantega
Seg, 01 de Fevereiro de 2010 07:52

 

     O almoço para discutir o Brasil, evento tradicional nos encontros anuais do Fórum Econômico Mundial, deveria servir para comemorar não apenas o título de "Estadista Global" que o presidente Lula recebera meia hora antes mas também o fato de o país estar na moda.

      Festejo houve, mas houve também porções de areia jogadas na roda do ufanismo por diferentes expositores.

      A primeira areia surgiu na pergunta do moderador (Ricardo Hausmann, venezuelano, diretor do Centro para o Desenvolvimento Internacional da Harvard University). Hausmann citou a capa recente da revista "The Economist" (em que o Brasil é retratado como um foguete que decola) e lembrou que o texto diz que um dos grandes méritos de Lula foi o de ter tido um bom antecessor.

      O ministro Guido Mantega, pouco à vontade no inglês, o único idioma que se fala em Davos, escorregou na provocação e admitiu: "Certamente o Brasil teve um bom presidente antes de Lula, que contribuiu para o sucesso de agora".

      Mantega contraria o discurso da "herança maldita" que o PT usou ao chegar ao governo e a afirmação do próprio Lula, no discurso de agradecimento do prêmio, segundo a qual "quase todos" os governantes brasileiros governaram apenas para um terço da população.

      Seguiram-se outros reparos ao panorama geralmente muito otimista que se traça do Brasil, tanto interna como externamente. Mario Blejer, ex-presidente do Banco Central argentino e vice-presidente do Banco Hipotecário, lembrou que o Brasil ficou em 40º lugar entre 57 países no índice de competitividade divulgado pelo próprio fórum tempos atrás. E que a carga fiscal é a mais alta entre os países em desenvolvimento.

      Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos, lembrou pesquisa do Ipea com números muito pobres sobre a educação para concluir: "Não estamos preparados para o futuro". Lamentou também que o país não tenha feito "a lição de casa" em matéria de inovação.

      A análise mais consistente sobre o contexto do sucesso atual do Brasil veio de um professor de história econômica, John Coatsworth, reitor da Escola de Assuntos Públicos e Internacionais da Universidade Columbia, de Nova York.

      Coatsworth lembrou que o Brasil foi o país que mais cresceu no mundo entre 1900 e 1980. Cresceu, na média, 50% mais que os EUA, citou.

      O professor listou ainda os dois itens que, em sua opinião, são os responsáveis pelo entusiasmo atual com o Brasil: o fim do modelo protecionista e o controle da inflação. (CR)

Folha de São Paulo